ENDEREÇO NO 4SHARED COM ALGUNS DE MEUS TRABALHOS

quinta-feira, 18 de junho de 2009

On-Demand Music x CD x Vinil

Essa semana foi anunciado durante uma edição do programa Debate MTV, que a Gravadora Deckdisc estaria colocando em funcionamento uma antiga e recém adquirida fábrica de discos de vinil, que deverá entrar em funcionamento no início do segundo semestre de 2009.

É claro que eu não preciso subestimar sua inteligência, caro leitor, quanto ao que é um disco de vinil, certo? Sei que muita gente não teve a oportunidade de colocar uma mídia dessas para tocar, mas qualquer pesquisa no Google ou Youtube pode trazer respostas mais rápidas sobre a tecnologia, fabricação e etc, do que eu poderia tentar explicar aqui em poucas linhas.

Mas porque afinal eu estou escrevendo este post? Seria eu um saudosista defensor ferrenho da qualidade do áudio e da mágica do vinil? Seria eu contra sua volta (não a sua, leitor, a do vinil)? Ou seria eu um viciado em downloads de MP3 e tudo o que fosse baixado ilegalmente na internet? Nem uma coisa, nem outra.

Esse post é somente para organizar algumas idéias que acredito que se tornarão verdade em um futuro próximo, baseadas na minha observação de como as coisas vão acontecendo no mercado fonográfico.

Vamos voltar um pouco no tempo... uns 20 anos já está bom:

1989 - Eu, na época com uns 15 ou 16 anos vou a uma loja de discos comprar um LP (assim eram chamados os discos de vinil) para dar de presente de Natal para uma namorada. Lembro me bem de tudo: Era uma loja que ficava na Rua São João, no Centro de JF, quase na esquina com a Av. Rio Branco. A loja vendia tanto LPs quanto os ainda pouco difundidos a grande massa - CDs - e o vinil ainda reinava aos milhares em balcões especialmente feitos para que pudessemos com apenas uma das mãos conferir rapidamente os títulos organizados em ordem alfabética e separados por estilos. Eu então comprei o que na época era uma febre: Legião Urbana - As Quatro Estações. Embrulhado para presente, e cuidadosamente carregado debaixo do braço, dali ele já foi direto para as mãos da presenteada.

Em casa, eu tinha alguns outros discos... talvez não muitos, mas escolhidos com cuidado e muito bem recomendados por alguns amigos e por donos de lojas, que conheciam muito bem os produtos que vendiam - coisa que já não acontece mais hoje, salvo raras excessões.

Alguns fatos importantes sobre como as coisas eram nessa época: Vinil era caro? Sim. Muito caro? Não. Não ao ponto de ser proibitivo, mas sim ao ponto de se possuir uma boa coleção, ser símbolo de status. Isso é fato. Proporcionalmente, o preço era como o de um bom CD vendido hoje em dia: entre os 25 e 35 reais. Digno de se tornar uma boa lembrança de Natal, ou de aniversário... ou ainda o campeão nas rodinhas de amigo secreto de final de ano de escolas e empresas... acho que você já pegou o espírito da coisa, certo?

Mas porque o vinil "funcionava" então? Simples: era colecionável, de certa forma representava status, era difícil de ser pirateado, tinha valor agregado, funcionava como meio de divulgação de novos artistas, era durável, muito durável e um detalhe muito importante: não haviam tantos artistas disponíveis lançando músicas como temos hoje, e com isso as pessoas tinham tempo de "degustar" o presente ou item da coleção recém adquirido. A gente ouvia "até furar"... esse termo era utilizado porque o disco "preto com um buraco no meio" (esse até foi um título de um disco do Casseta e Planeta que por sinal era muito bacana) rodava por meses no toca-discos, alternando entre os outros da coleção, que por maior que fosse, ainda dava a impressão de que seria sempre ouvida em sua totalidade.

A questão da pirataria aí inclusive é muito interessante. Cópias, só em K7. Ou seja, colocava-se o disco para rodar e gravava-se a saída de linha do pré de phono num tape deck. A pessoa até podia ter o áudio copiado, mas e a capa? E o encarte com as letras? E a qualidade e durabilidade do original? E o status? Sentiu qual era? Tinha valor agregado.

Eis então que os preços de CD players começam a cair, o produto começa a baixar um pouco de preço com a fabricação nacional (antes, só importado), algumas fábricas de vinil começam a ficar de pernas bambas e pouco tempo depois, cerca de 2 anos mais ou menos, ninguém mais cogitava comprar as bolachas pretas, consideradas grandes e desajeitadas, frágeis, de qualidade sonora inferior, atrasadas tecnologicamente e tantos outros adjetivos que reduziram o mercado de LPs a uma meia dúzia de gatos pingados saudosistas - vassourinhas de sebos, com seus dedos, dentes e bigodes amarelos de cigarro e seus discursos desgastados e demodês.

Tudo ia bem, bem demais. A nova mídia era a cara da modernidade. Era pequena, fácil de ser guardada e transportada, teoricamente mais resistente e durável (doce ilusão), e ainda era colecionável, ainda simbolizava status (tinha gente que mesmo com o nacional disponível, fazia questão de um exemplar europeu ou japonês). Ainda era um eficiente meio de divulgação de novos artistas. Ainda era pirateável, mas pelo mesmo processo anterior, a fita K7, que então teve que acompanhar o novo formato dominante do mercado e aumantar sua duração de tempo de gravação e melhorar a qualidade da matéria prima, para que fosse possível registrar o mais próximo possível a qualidade do que se ouvia no CD. A indústria de eletrônicos tinha espasmos de felicidade, começando definitivamente a vender novos aparelhos que eram modernos, de plástico (mais leves, frete mais barato), de design arrojado, teoricamente mais potentes, mais baratos que os antigos modulados em metal ou madeira. Isso sim é que é produto pra indústria crescer!!! Começava então de vez o novo EON do estragou, ja era, compre outro! Que felicidade!

O lance é que se por um lado uma indústria força a barra pra ganhar dinheiro de um lado, sempre tem alguém que vem na aba e lança coisas pra se ganhar dinheiro (e muito) aprimorando a tecnologia criada por outros, e muitas vezes tomando posse dela. Um dos detalhes que fez o Compact Disc (sim, é o que significa a sigla CD) ser um sucesso, é a sua portabilidade. Veja bem: vc já viu algum Toca Discos de vinil para automóveis? Até tem, mas como novidade dos dias atuais, porque na época, ou era rádio AM/FM do carro, ou então aquela copia em K7 daquele seu amado vinil, o que poderia funcionar enquanto você dirigia seu "Del-Rey", ou aquele Corcel... sabe como é, né? Mas então, voltando ao assunto da tecnologia, conseguiram fazer os players de CD ficarem pequenos. Não somente pequenos, mas tecnologicamente avançados o suficiente para caberem no mesmo espaço daquele rádio Motorádio que seu tio tinha no Chevette dele. Veja bem, era stéreo, tinha um amplificador potente, era microprocessado em 4 canais, 2 frontais L-R e 2 traseiros L-R independentes, display digital colorido (uau!) e ainda tinha AM/FM. Um luxo, praticamente.

Mas, retomando o rumo da prosa, lembra do lance que falei ali em cima sobre alguém vir na aba da tecnologia e desenvolver algo melhor e tal? Pois é... descobriram que a tal mídia nova, como era digital (sistema binário de 0 e 1) podia guardar na verdade qualquer informação digitalizada, ou seja, podia guardar um texto, podia guardar uma foto digitalizada por um scanner (nossa, scanner também era um avanço e tanto), podia guardar praticamente qualquer coisa, e tinha bastante espaço pra isso, já que na época, as mídias mais comuns para computadores eram os discos de 3 e 1/2 polegadas que guardavam pouco mais de 1.4 MB cada um e alguns outros formatos menos populares como discos de zip, ls, etc.. que guardavam ainda no máximo uma quinta parte do que cabia numa mídia de CD, e com a desvantagem de serem ainda mais caras e terem aparência de coisa antiga. A indústria então, aproveitando a nova onda de mídias de CD graváveis (CDR), integra aos já existentes CD-ROMs dos computadores domésticos, uma tecnologia capaz de faze-los não somente ler dados de CDs industrializados, mas também gravar, sim, gravar!!! Agora então o consumidor final poderia armazenar centenas de MB num pequeno disco ótico, moderno, bonito, mais barato e tudo com somente alguns cliques de mouse.

Cabe um parêntese aí nessa parte: Já existia pirataria de áudio em banca de camelô? Sim, mas era em K7, com no máximo uma frente da capa da fita em Xerox colorido e normalmente em fita de baixa qualidade e mal gravada, ou seja, a indústria fonográfica ainda estava se dando muito bem com venda de CDs, e artistas ainda tinham a maior parte de seu faturamento anual oriundo da venda de seus fonogramas, e não somente de shows e merchandising.

Voltando um pouco então, miraram no que viram, acertaram o que não viram: a cabeça da indústria fonográfica. Simples de explicar: se por um lado o crescimento da venda de aparelhos de som novos e CDs movimentou as indústrias de eletrônicos, fonográfica e de entretenimento, por outro o desenvolvimento, o aumento absurdo da população mundial, a globalização, o acesso a informação e principalmente a internet - que começava a dar as caras - começaram a disponibilizar ao público final tecnologias que até então só estavam acessíveis às indústrias. A pirataria agora não era mais em K7, era em CDR, com capa de Xerox colorido. Bandas e artistas novos pipocavam de todos os cantos. A informação começava a chegar até nós por meio de fórums especializados, sites, grupos e listas de discussões por e-mail. O CD áudio que até então só era lido por players de áudio, começou a ser lido e copiado em gravadores caseiros de CDRom, e o como se isso já não fosse o suficiente para enterrar o faturamento da indústria fonográfica, ainda jogaram a pá de cal que faltava por cima: os CDs de artistas de grandes gravadoras agora circulavam pela internet, copiados inteiros ou por faixas, compactados ou não em diversos tipos de extensões de arquivos e com suas capas e encartes coloridos escaneados nos então já acessíveis scanners caseiros. Era o fim.

Vamos ambientar um pouco mais as coisas. Por quanto tempo mesmo o CD reinou absoluto? 15 anos? 10 anos? Menos, infelizmente. Lembro me de comprar alguns CDs por volta de 1992 e ainda ter gente comprando vinil, ou seja, eles ainda estavam lado a lado nas prateleiras. Quando o vinil perdeu mesmo a força por volta de 93 ou 94 e deixou de ser comercializado, seguiu-se um período de excitação tecnológica que foi marcado pelo começo da popularização da internet em 96/97; e em 98/99 já estava instaurado o caos da banda larga nas principais capitais e grandes cidades e com sistemas de transferência P2P extremamente populares, como o saudoso Audio Galaxy, Napster, etc... sem falar dos preços de gravadores de CD de computador, que a essa altura do campeonato já eram chamados de COMBOS, pois liam e gravavam CDs e liam DVDs.

Aí então começou a luta para tentar fazer pegar na internet um esquema de varejo de músicas vendidas por download. Esse sistema funciona até hoje e o mais popular deles é o iTunes, seguido por outros de mesmo modelo. O problema é que, se vc pode ter de graça, vai pagar porque? Porque de graça é ilegal? Porque roubar é feio? A maioria já não pensava assim, porque os hábitos haviam mudado. A internet tornou as pessoas mais vaidosas. Muitos grupos de interesse comum foram formados, surgiram as redes de relacionamento e as discussões abertas sobre o que seria legal ou não, ficavam ao lado das janelas dos browsers dos internautas ávidos por novidades musicais compartilhadas antes mesmo de seu lançamento oficial. Um pequeno arquivo de texto dentro de um arquivo compactado contendo dezenas de mp3 de um artista avisava: "Se você gostou do conteúdo desse CD, compre o original e delete essa cópia da sua máquina. Pirataria é ilegal!". Como se um txt dentro do arquivo compactado fosse eximir o "criminoso" da sua responsabilidade por compartilhar ou se apropriar ilegalmente do que é de propriedade intelectual de terceiros.

O problema é que esse "povinho" mal acostumado então, não tinha mais interesse em comprar CDs originais, pois ninguém mais tinha tempo suficiente para ouvir tudo o que baixava da internet, nem dinheiro sobrando e muito menos interesse em comprar online meia dúzia de arquivos mp3 de quem quer que fosse, e por mais barato que isso pudesse ser, afinal, já tem de graça mesmo, então dane-se.

Mas peraí, vc deve estar achando que eu tou dizendo que a coisa toda morreu e já era e tal, certo? Não. Ainda tem gente que compra CD, e até vinil, mas agora não existe mais o fator de se consumir essas mídias como meio de conhecer novos artistas, que era uma das principais coisas que alavancavam e mantinham a venda da indústria fonográfica, pois se ninguém conhecia, e se não estava disponível em lugar nenhum, só restava para o fã de determinada banda, ou para qualquer um interessado em saber um pouco mais sobre tal artista, a alternativa de comprar um CD/Vinil original ou pedir uma cópia emprestada a um amigo, só que isso nem arranhava a indústria fonográfica.

Nesse momento 3 coisas começam a acontecer:

A primeira delas é a iniciativa de artistas que, ao verem que suas vendas caíram muito, passaram a então disponibilizar gratuitamente algumas ou até mesmo todas as faixas de seus novos trabalhos na internet, como é o caso do Radiohead, Nine Inch Nails, Gorillaz, Artic Monkeys, e dezenas de centenas de outros. Isso gerou ação reversa: os antigos fãs voltaram a comprar CDs e até mesmo algumas edições em vinil foram lançadas com conteúdo especial e os novos fãs passaram a pagar pelas músicas, como forma de agradecimento pela generosidade das bandas. Lembra do valor agregado?

A segunda mudança foi relacionada ao valor dos cachês cobrados nos shows. Um exemplo foi o show dos Mamonas Assassinas, em plena época de banda estourada na mídia, tocando em Faustão, Gugu e em todos os canais, chegando a estar em mais de um canal ao mesmo tempo - num ao vivo e no outro em programa gravado ou passando clip - e com cachet de show em torno de 20 a 30 mil Reais. Recentemente tomei conhecimento de que um show do Chiclete com Banana, que já é uma banda antiga, porém dessas que nunca está no topo da mídia, exceto na semana do carnaval, cobrou por um show o valor de R$ 310.000,00! E que o cachet da Calipso para tocar na virada de Ano Novo da Band (me corrija se eu estiver errado) foi de R$ 1.000.000,00 - Um milhão de Reais - segundo as más línguas. Não tenho como comprovar, portanto, se alguém souber e puder me informar ou confirmar, agradeço. Temos então bandas que não se preocupam mais em ganhar dinheiro com venda de fonogramas, e sim com shows, pois esse dinheiro elas tem como controlar, já que ficou conhecida a estória de que as próprias gravadoras estariam roubando os artistas com tiragens extras e vendas não contabilizadas de lotes de cds, ou seja, um caos total.

A terceira e última mudança que começamos a sentir é a no formato como a música é oferecida para o consumidor. É a chamada On-Demand Music, que pode ser explicada de forma bem geral como: "vc pode ouvir, mas não pode baixar", ou ainda: "vc baixa ou tem o direito de baixar, mas somente o que nós queremos que você baixe", resumindo a segunda opção: um monte de lixo. As formas de apresentar isso tudo pra você estão diponíveis em vários formatos: rádios online que tem receita gerada por banners, rádios online que comercializam músicas ou CDs, como a LastFM, onde é possível ouvir músicas de um determinado gênero, mas você não tem controle absoluto, e se quiser ouvir mesmo alguma música específica, ou paga, ou só ouve 15 segundos. Temos ainda alguns esquemas de venda-casada, tipo, compre um Nokia Comes With Music e baixe de graça milhares de MP3 (maioria lixo sem valor musical) por 1 ano. Depois de um ano, seu celular vira um player normal e se quiser continuar acessando lixo, tem de pagar.

Tudo isso está sendo oferecido numa bonita embalagem e acompanhado das palavras FREE, GRÁTIS, etc... mas no fundo se trata de uma forma de desviar você dos downloads de albuns completos dos sites de torrents, que aos poucos vão secando e ficando sem arquivos disponíveis, ou com seus arquivos incompletos e muitas vezes corrompidos ou infectados por vírus. Você pode ouvir, mas não terá mais o arquivo em seu poder, e com isso, aos poucos a indústria vai dando um jeito de mostrar quem manda, e vai até mesmo influenciando o seu gosto musical, empurrando guela abaixo o que ela quer que você consuma.

Obrigado por ler até aqui. Demorei quase 3 horas escrevendo isso. Espero que a leitura tenha sido boa pra você.

Um abraço.